A NOSSA DEPENDÊNCIA

Almograve - do árabe al-mugáuár, «o que faz incursões»

Vamos olhar a praia com outros olhos e mostrar essas novas imagens a todos os "dependentes" deste local. Vamos recordar aquilo que desapareceu com o tempo, mas que ainda paira na nossa memória. Convido-vos a partilhar a paixão pelo Almograve.


Maria Filomena Ponte Silva



sexta-feira, 17 de maio de 2013

CORRER A COSTA



   Um destes dias, o meu primo António Ginjeira perguntou-me: “Sabe o que quer dizer “correr a costa”? Encolhi os ombros e percebi que vinha ali história.
   Era habitual os habitantes do Almograve e redondezas percorrerem as praias e os rochedos, em busca daquilo que o mar pudesse trazer. Chamava-se a isso correr a costa. Faziam-no sobretudo durante a  noite, não se fosse dar o caso de, encontrando algo mais valioso, serem obrigados a pagar uma taxa sobre o achado. Encontravam um pouco de tudo e até objetos fantásticos de uso e origem desconhecida como uma simples lâmpada.
   Uma noite, aperceberam as luzes de um barco que se aproximava perigosamente das rochas. Era uma draga que estava a ser rebocada e que, no momento em que os cabos se partiram, ficou entregue à sua triste sorte: encalhar nos rochedos.
   Os intrépidos “corredores” da costa imaginaram facilmente a riqueza que poderiam retirar dali. E assim foi: a draga foi praticamente desmantelada e o ferro vendido.
Quando forem para os lados do Zé Romão, olhem para sul e imaginem.

terça-feira, 6 de março de 2012

A DANÇA DAS GAIVOTAS E Mme DELACOURT


Subitamente, o improvável: um bando de gaivotas entusiasmadas rodopiava sobre a duna,mesmo em frente da rocha furada. Aproximou-se um carro e dele saiu uma mulher de corta-vento azul que foi recebida por guinchos agudos .



                        Abrandei a marcha e dirigi-me à mulher que abria um saco de plástico. Inacreditável: as gaivotas esperavam o seu lanche. O segredo era esse: o lanche. Pedacinhos de restos de comida criteriosamente escolhida e cortada. Perguntei-lhe se era habitual alimentá-las. Que sim, que as conhecia há que tempos, a mim é que não e lá me apresentei. Trata-se de uma senhora belga que mora na Longueira há anos- Mme Delacourt- , apaixonada pela zona, mas um pouco desiludida com as alterações climatéricas. 






Pedi-lhe autorização para fotografar e para publicar, desanimando perante o facto de só ter levado o telemóvel. O vento doía naquele fim de tarde e fomo-nos afastando do local, até que ela se imobilizou lançado um “Ohhh!Desculpe, tenho de voltar atrás para me despedir delas.” 
Aquela era a verdadeira comunhão com a natureza.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

RECEITA DE FRANGO( OU GALINHA) COM GRÃO

(uma receita deliciosa que a D.Agostinha partilhou com a minha mãe)

Ingredientes:
.1 frango do campo
.grão cozido
.1 nabo grande
.cebola
.alho
.salsa
.azeite q.b.
.sal
Faz-se um estufado com o frango do campo aos bocadinhos, cebola, alho, salsa, azeite e sal. À parte, coze-se grão com um nabo e cebola. Depois de bem cozido, junta-se o grão e a água da cozedura ao frango. Deixa-se ferver e apurar. Come-se calmamente, acompanhando com um tinto alentejano.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A MERCEARIA DO SR. ANALIDE

A antiga mercearia dos Ganhão esteve instalada nesta casa até ao início dos anos sessenta.









A chegada para as férias no Almograve era uma festa. Quando o carro acabava de descrever a acentuada curva dos eucaliptos, avistava-se o chafariz e, uma centena de metros depois, o bloco longo e ofuscante de cal dos Ganhão- quartos, taberna, mercearia e café. À esquerda da porta, encontrávamos a caixa encarnada do correio e se experimentássemos entrar, iríamos deparar com algo que, hoje, se designaria por Loja de Conveniência. Entrei lá tantas vezes que me é fácil accionar a minha memória visual e reconstruir, prateleira por prateleira, aquilo que lá havia à venda.

Quando ainda não tinha altura para ter uma visão global da loja, apercebia, na prateleira da direita, logo a segui à porta, os artigos para o lar: canecas, copos (como os da fotografia), candeeiros a petróleo, chaminés, abanos, fogareiros, detergentes, papel higiénico, chapéus de palha, chinelos… à esquerda, estavam as vassouras, encostadas à cabine de madeira onde se podia telefonar, junto aos baldes cheios de grão e de feijão e onde eu adorava enfiar as minhas mãos. No chão, entre a cabine e o balcão havia melancias e melões.

Mas não era nenhum daqueles artigos que ali me levava. Batia com a moeda de vinte e cinco tostões no balcão e pedia:
25 ‘stões de rebuçados, por favor, e apontava para os enormes frascos que estavam ao lado da balança. Depois, embrulhavam-mos num cone de papel pardo. Mais tarde já chegava ao molho da correspondência e procurava facilmente os envelopes de avião e os aerogramas do meu pai, os cartões de aniversário das tias com miúdas de ar yé-yé e cãezinhos saltitantes ao lado. Do outro lado do balcão pintado de verde, havia uma bancada com produtos alimentares variados (açúcar, margarina, manteiga…) e uns pratos com enchidos e queijos. Não se podia dizer que houvesse muita diversidade, mas havia o essencial. Na parede da esquerda, prateleiras – verdes também - acolhiam pudins instantâneos, pacotes de farinha e de leite; na da direita, havia tecidos a metro, caixas com meias e collants. Ao fundo, estavam as caixas com os artigos para a correspondência: sobrescritos brancos e outros com uma cercadura verde e encarnada para correio internacional; os selos; os postais dos CTT e os ilustrados. Se havia uma dor de dentes não anunciada anteriormente ou uma dor de cabeça irritante, arranjava-se sempre uma aspirina ou um melhoral.
A D.Agostinha, habitualmente tão azafamada nos bastidores da sua loja - na cozinha, onde os alumínios pendurados nas espeteiras  ofuscavam de tão areados, nos quartos que, nas décadas de sessenta e setenta, acolhiam os veraneantes nacionais e os primeiros estrangeiros que aqui surgiram-, foi perdendo naturalmente o seu vigor com o passar dos anos até permanecer mais tempo sentada junto ao balcão sobre o qual pousava um dos cotovelos, olhando fixamente a porta e respondendo aos cumprimentos de quem passava.
Talvez tenha sido nesse sítio que a vi pela última vez. Ao senhor Analide, via-o mais na loja ao final da tarde e à noite e interrogávamo-lo sobre quando haveria mais feijão verde, melancias, melões, couves, grão… Se chegávamos ao Almograve já noite cerrada, entrávamos pelo café e nunca ficávamos sem um pacote de leite, uma garrafa de água, o que quer que fosse. Às vezes era Inverno e só havia um ou dois homens a conversar à volta de dois medronhos e de um dominó; outras vezes era Verão, o café e a pequena esplanada rebentavam de vozes entusiasmadas pelas férias; outras vezes era Primavera, outras Outono. E, depois, durante anos, o seu estabelecimento teve o melhor lote de café das redondezas. Era uma delícia. Não entrei muitas vezes pela taberna, mas lembro as barricas tintas de vinho, os bancos corridos e, em certas ocasiões, os sons dolentes do canto alentejano, arrastando-se para o exterior.
O Almograve vai perdendo naturalmente as suas figuras mais típicas. É normal. Porém, quando passamos no Largo do Comércio e encontramos aqueles espaços ocupados por outras pessoas, é como se nos acordassem para a consciência de uma perda irreparável do tempo que passou e para um salto em queda livre rumo a uma dimensão que não é a nossa. É conversa de quem está a envelhecer? Talvez, mas já a tenho ouvido da boca de jovens e interrogo-me frequentemente sobre uma possível perda de identidade do local. O que é verdadeiramente imutável? O que é possível preservar? O que se pode recuperar? Como podemos lembrar com dignidade as pessoas que fizeram e as que ainda fazem parte do Almograve? A memória colectiva pode (deve…) ser assegurada e divulgada, porque ela sobrepõe-se ao desgaste temporal. Resta-nos a mercearia do senhor Francisco que também merece umas considerações um destes dias.
Bato com a moeda no balcão:
Por favor, vinte e cinco tostões de rebuçados, D.Agostinha.


quinta-feira, 18 de março de 2010

A Rocha Furada



Contam que as duas rochas já foram só uma, com um enorme buraco ao centro. Sempre as conheci com a configuração actual: sólidas, servindo de separação entre as duas praias, com aquela enorme porta.
Nos anos 60, todas as famílias de veraneantes plantavam o seu toldo na praia principal e só o recolhiam no último dia de férias, por isso era natural que a preguiça de verão não os empurrasse para a segunda praia. Actualmente, em lugar de uma praia com pouca gente e outra desabitada, deparamos com dois areais cobertos de chapéus-de-sol e de gente estranha. À outra praia, íamos de vez em quando num passeio para desmoer o almoço e entreter a digestão ou para tomar um duche mais recatado na última fonte, subindo a escadaria de lajes cinzentas, abrasadoras ao sol , geladas à sombra. Encontrávamos um forasteiro ou outro, pescadores pacientes e largos tapetes de algas de odor iodado , salpicadas de mosquitos irrequietos.
Atravessar aquela fortaleza poderá ser uma aventura: enganar a rebentação na ida não significa que se consiga fazer o mesmo no regresso, o que nos obrigava a trepar as dunas e a dar a volta sobre a areia escaldante, já que a estrada para o Porto de Lapa de Pombas é obra dos anos oitenta.
A minha mais sombria recordação da rocha prende-se com um acidente com um banhista que foi fazer mergulho e que esteve dias desaparecido no mar, entre os tentáculos das algas compridas que tinham invadido a segunda praia. No dia em que o corpo deu à costa, colocaram-no no sítio mais fresco da praia... entre as duas rochas. Lembro a minha curiosidade patética de criança e do meu olhar sem reacção perante o corpo do homem que envergava o fato de mergulho, negro como as pedras. Nunca as transponho sem me recordar do frio do local e do gelo que irradiou para os olhares fúnebres da praia o corpo morto do homem, levado numa padiola dos bombeiros e acompanhado pela passada incerta do delegado de saúde.
Maria Filomena Ponte Silva