A NOSSA DEPENDÊNCIA

Almograve - do árabe al-mugáuár, «o que faz incursões»

Vamos olhar a praia com outros olhos e mostrar essas novas imagens a todos os "dependentes" deste local. Vamos recordar aquilo que desapareceu com o tempo, mas que ainda paira na nossa memória. Convido-vos a partilhar a paixão pelo Almograve.


Maria Filomena Ponte Silva



quinta-feira, 18 de março de 2010

A Rocha Furada



Contam que as duas rochas já foram só uma, com um enorme buraco ao centro. Sempre as conheci com a configuração actual: sólidas, servindo de separação entre as duas praias, com aquela enorme porta.
Nos anos 60, todas as famílias de veraneantes plantavam o seu toldo na praia principal e só o recolhiam no último dia de férias, por isso era natural que a preguiça de verão não os empurrasse para a segunda praia. Actualmente, em lugar de uma praia com pouca gente e outra desabitada, deparamos com dois areais cobertos de chapéus-de-sol e de gente estranha. À outra praia, íamos de vez em quando num passeio para desmoer o almoço e entreter a digestão ou para tomar um duche mais recatado na última fonte, subindo a escadaria de lajes cinzentas, abrasadoras ao sol , geladas à sombra. Encontrávamos um forasteiro ou outro, pescadores pacientes e largos tapetes de algas de odor iodado , salpicadas de mosquitos irrequietos.
Atravessar aquela fortaleza poderá ser uma aventura: enganar a rebentação na ida não significa que se consiga fazer o mesmo no regresso, o que nos obrigava a trepar as dunas e a dar a volta sobre a areia escaldante, já que a estrada para o Porto de Lapa de Pombas é obra dos anos oitenta.
A minha mais sombria recordação da rocha prende-se com um acidente com um banhista que foi fazer mergulho e que esteve dias desaparecido no mar, entre os tentáculos das algas compridas que tinham invadido a segunda praia. No dia em que o corpo deu à costa, colocaram-no no sítio mais fresco da praia... entre as duas rochas. Lembro a minha curiosidade patética de criança e do meu olhar sem reacção perante o corpo do homem que envergava o fato de mergulho, negro como as pedras. Nunca as transponho sem me recordar do frio do local e do gelo que irradiou para os olhares fúnebres da praia o corpo morto do homem, levado numa padiola dos bombeiros e acompanhado pela passada incerta do delegado de saúde.
Maria Filomena Ponte Silva

5 comentários:

  1. AInda me lembro do dia em que morreu este homem,mas que me faz recordar que tambem salvei um no mesmo local, era eu ainda um garoto com a minha prancha de bodYboard,recordacoes perdidas no tempo que este testo acima me veio avivar...SERGIO.

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  2. É verdade, Sérgio. Há coisas que parecem perdidas, mas que facilmente recuperamos. É esse o objectivo deste blogue. Obrigada pela participação.

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  3. Só gostaria de referir que o meu avô foi um dos homens que ajudou a recolher o corpo... memórias!
    Miguel

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  4. Essas pedras também sempre as conheci assim. E, transpunha-as sempre porque os meus pais gostavam da praia do fundo, quase sem ninguém e, onde nós ficávamos enquanto ele se ia entreter à pesca, nas rochas.
    As malditas algas que fala, iam-me sendo fatais já que eu praticava apneia, isto há cerca de 33 a 35 anos. Iniciado, mergulhando atrás de um peixe enorme, vi-me envolvido num dos túneis de algas, e foi com grande dificuldade que cheguei à superfície. Durante anos ganhei medo a mergulhar ali. Enfim, memórias...

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